O Natal da Carpa e da Gata

Eis que uma Gata e uma Carpa se encontraram e se apaixonaram. Logo estavam casados e felizes, pois tinham muito em comum: ambos tinham bigodes, manchas negras no dorso e descendiam de uma linhagem nobre e sagrada. 1

Quando chegou o primeiro Natal deles, a Carpa começou a ficar preocupada. Pensava enrolando os bigodes: como poderei dar algo de valor para a Gata? Tenho tão pouco e ela tem quase tudo! Olhos verdes que poderiam substituir o mar se assim fosse necessário. Um rabo elegante e sinuoso que desenha redemoinhos no ar. Um pelo brilhante e macio e um andar silencioso e sutil que me fazem sempre pensar que estou sonhando quando a vejo se aproximar! 2

Assim, sentido depressão, a Carpa continuava engolindo e cuspindo as pedrinhas brilhantes do fundo do aquário, quando viu diante de si a sua velha concha de caramujo. 3

Aquele era o objeto favorito da Carpa. Quando ela era pequenina, aquele caramujo era grande, muito grande. Muito maior do que a Carpa. E o caramujo era assustador. De propósito. Uma vez fez a Carpa pular para fora do aquário, quando quase morreu com as escamas secas. O caramujo ria, ria. Mas a Carpa sentia orgulho de ter na sua descendência dois ou três imperadores chineses e jurava em nome da honra dos antepassados que um dia se vingaria daquele caramujo. 4

- Honorável senhor – dizia a Carpa humildemente – Os orvalhos da manhã, as tempestades do anoitecer. 5

Mas aquele caramujo, obviamente obtuso, inculto e um simples camponês sem passado, apenas ria. Um dia, a Carpa o engoliu. O Caramujo gritava lá de dentro da boca da Carpa:6

- Solte-me, sua piabinha, que eu jogarei você fora do tanque.7

Aquele tosco não havia percebido que as coisas mudaram e agora a Carpa era bem maior do que ele. A Carpa ria, daquele jeito que os chineses riem escondendo o riso com as mangas longas das túnicas que usam, enquanto movia o caramujo dentro da boca de uma lado a outro. Depois de um tempo, terminou de chupá-lo e cuspiu a casca vazia. A satisfação que sentia enquanto olhava aquela casca não tinha tamanho. E era uma casca de boa qualidade: espaçosa e rajada de verde, que escurecia na medida em que as espirais se afinavam. 8

- Esta é a única coisa de valor que tenho. Mas ela só vale tanto assim para mim. Para ninguém mais. 9

Um dia a Carpa percebeu algo novo. Um Caranguejo passou carregando um belo peixe. A Carpa se lembrou de com a Gata gostava de um filé de peixe, mas não se lembrava daquele caranguejo antes. 10

- Saudações, honorável vizinho – disse a Carpa com uma pequena inclinação – que belo pedaço de peixe você tem. 11

- Sem dúvida, meu irmão! Dei sorte de encontrá-lo fresquinho, perto do navio pirata que abre e fecha. 12

- Perdoe-me a indiscrição, mas é novo por aqui? Não me lembro de tê-lo visto anteriormente. 13

- Como não, Carpa! Eu vivia no meio daquelas plantas que você tanto gosta de comer. 14

A Carpa espremeu os olhos para conseguir ver com mais atenção o pequeno Caranguejo. Então o reconheceu:15

- Pelos bigodes do Imperador! Mas você não é aquele pequeno caranguejo andarilho que vivia dentro de uma casquinha de caracol? Mas como você cresceu! 16

- Infelizmente, meu chapa. Agora fiquei sem concha, pois a antiga não me serve mais. Durante a noite, sinto um friozinho nas minhas pernas traseiras...17

Ao ouvir aquilo, a Carpa olhou para a sua casca de caramujo, que tanto gostava, olhou para o peixe que o Caranguejo carregava e disse: 18

- Respeitável amigo, tenho uma proposta a fazer que trará benefícios a nós dois. Mas principalmente a uma pessoa muito especial. Notei que sente falta de uma acomodação mais apropriada para o seu tamanho avantajado. Já eu, tenho uma acomodação que é mais que perfeita e digna para o mais humilde nobre. Pode examiná-la com os próprios olhos se assim desejar; é espaçosa, é bela e sólida. Já eu, meu honrado amigo, tenho necessidade de algo especial e esse reluzente filé que levas, sem dúvida grande demais para o honrado amigo, é o que mais se aproxima da minha necessidade. Poucas vezes vi o destino agir de maneira tão misteriosa e conveniente. Proponho que façamos uma troca, imediatamente, e nos separemos satisfeitos com a situação. 19

Seja por querer muito uma nova concha, seja por não estar com tanta fome o Caranguejo imediatamente aceitou a proposta. E a Carpa muito feliz amarrou um belo laço de fita vermelha no rabo do peixe. Quando chegou a hora, a Carpa, cheia de humildade, ofereceu o peixe para a Gata.20

Primeiro, os olhos da Gata brilharam como safiras e depois ela ronronou baixinho, cheia de satisfação. Sem dúvida foi um grande presente, como havia imaginado a Carpa. Então, pela mente da Gata passou a imagem: ela também não tinha conseguido encontrar um presente para a Carpa. Pensamentos saltaram, as palavras saíram: 21

- Amorrrr, meu muito obrigado. Mas nós gatos comemoramos o natal um pouco diferente. Tradição egípcia! Amanhã é o dia que distribuímos os presentes e amanhã você ganhará o teu - a Gata ia falando e percebia que prometia um presente que não tinha para dar, nem conseguia imaginar o que poderia interessar a Carpa. Pois a Carpa? Tinha tudo! Escamas brilhantes que protegiam o corpo, nadadeiras longas que permitiam que deslizasse pela água sem esforço algum, e aqueles grandes olhos sempre abertos, sempre atentos. Não era de se admirar que fosse capaz de saber tantas coisas e tivesse no sangue, o mesmo sangue dos grandes dragões imperadores da antiga China. Mas nada disso deixava transparecer, exceto talvez pelo balançar lento da ponta do rabo, um velho hábito que fora incapaz de corrigir. Tentou mudar de assunto, antes que a Carpa notasse algo de errado e disse: 22

- Amorrr, mas me mostre novamente aquela concha tão bela que tomou daquele vil caramujo. 23

A Carpa abaixou a cabeça, triste e resignada e disse:24

- A concha? Ah, deixei cair e quebrou... 25

- Awww, que pena – disse a Gata e as duas ficaram em silêncio, uma seguindo a outra na superfície espelhada do tanque. 26

No dia seguinte, a Gata olhava para dentro da água indolente. Pensava como contaria para a Carpa que não tinha presente algum. Estava tão irritada que mal havia conseguido dar uma mordiscada no peixe. Foi quando viu uma concha, igualzinha à que a Carpa tinha quebrado, andando pela beirada do tanque. 27

- Owww, igualzinha! Diria que são de caramujos irmãos. Que presente perfeito! – pensou e pronto! Ação segui-se e rápida como um raio, cravou suas garras na concha e retirou-a da água. Foi quando ouviu um: 28

- Ei! – e notou que dentro da concha estava um pequeno caranguejo e aquela era a razão da concha movimentar-se. 29

- Orrra, mas que fascinante – disse sorrindo, só que aquele sorriso era um meio rosnado e que se um rato estivesse por perto diria para o Caranguejo correr o máximo que pudesse e se enfiasse no primeiro buraco que encontrasse sem jamais olhar para aqueles olhos brilhantes. Mas não havia um rato ali e o caranguejo que tinha medo de tartarugas, polvos e tubarões apenas, enfiou a cabeça e quatro patas para fora e disse: 30

- Meu, e o meu direito de ir, vir e ir? 31

- Mas meu amigo, querro apenas conversar contigo - disse a Gata, jogando a concha e o caranguejo dentro dela, de uma garra para outra – veja meu amigo, tenho um sério problema. Uma pessoa muito importante para mim precisa de algo que você tem. E eu tenho tão pouco para dar em troca. E isso me deixa tão triste. Você não quer me ver triste, quer? 32

Verdadeiramente, o Caranguejo não queria que ninguém ficasse triste. Mas bem no fundo, já se sentia um pouco tonto com aquele vai e vem. Então disse:33

- Não, claro que não. Mas o que eu posso fazer para quebrar o seu galho?34

A Gata riu e mostrou o peixe. O caranguejo é claro reconheceu o peixe, que já não era tão fresquinho quanto antes e tinha um pedaço mordido (pela Gata em um momento de frustração). Pensou em recusar, mas aqueles grandes olhos brilhantes pareciam lhe dizer que era uma ótima troca. A troca da sua vida para dizer a verdade. 35

- Eu deixo você levar esse excelente filé e em troca você me entrega essa bela concha de segunda mão. 36

- Só isso? – perguntou o Caranguejo. 37

- Não, não só isso. Eu gosto de contarrr sabe. Eu vou fechar os olhos e contar até três. Então se você estiver aqui ainda...38

A Gata falou aquilo e espreguiçou um pouco, sem tirar os olhos do Caranguejo que tentava arrastar o peixe. 39

- Um... – disse a Gata e o Caranguejo olhou para cima para protestar, pois não podia deixar de notar que ela continuava com os grandes olhos brilhantes abertos. Percebeu que era melhor correr e mergulhou rápido no tanque, sem olhar para cima ouvindo: 40

- dois...41

Mas tarde a Gata e a Carpa se encontraram. A Gata de muito bom humor deu-lhe logo a concha. 42

- Como combinado, eis o presente na hora dos gatos! Eu havia comprado essa para que você tivesse um par. Pena que a outra quebrou, mas pelo ao menos você não fica sem uma bela concha. 43

- Que bela concha! Realmente, que semelhança notável. E o peixe, estava gostoso? 44

- Delicioso - respondeu a Gata, piscando os olhos com displicência – Agorrra, meu amor, somos só nos dois...45

E assim ocorreu, no primeiro natal da Carpa e da Gata.46

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Comments


  • gaze
    January 29, 2008

    Edit | Reply
    Adorei! O vai e vem de presentes narrado de uma maneira muito engraçada, sem contar na moral da estória.

    Penso que vi dois pequenos erros na escrita.
    "Mas tarde a Gata.." Mais tarde

    "E o caramujo era assustador. De propósito. Uma vez fez a Carpa pular..."
    De propósito não deveria estar entre ponto final, eu penso.

    De qualquer forma, a sua estória foi bem contanda e engraçada também. Já considerou a idéia de escrever estórias infantis em forma de livro?